domingo, 31 de janeiro de 2010


Artigo 14
Centenário da Implantação da República (1910-2010)
Numária
O Papel-moeda
1910 – 2010
Por: Luís Manuel Tudella


VINTE ESCUDOS

Chapa 2
D. João de Castro



Na segunda nota de vinte escudos, foi lembrada a figura de D. João de Castro, quarto vice-rei da Índia e um dos grandes vultos da história portuguesa do século XVI.
A frente da nota apresenta sobre um fundo rectangular, composto por diversos trabalhos de guilhoché e “moiré”, impresso a três cores; castanho claro, rosa e verde e uma estampagem calcográfica a azul escuro que constitui o suporte do retrato de D. João de Castro. O verso tem o fundo policromo irisado, composto de linhas ondulantes verticais e uma aplicação em “moiré”. Sobre o fundo vê-se uma estampagem a preto, com os motivos principais da composição, a gravura com a vista do Palácio de Sintra, de autoria do gravador do Banco de Portugal, Armando Pedroso, onde sobressai o trabalho de torno geométrico em linha branca constante dos ornatos.
O papel foi fabricado pela casa francesa Société Anonyme des Papeteries du Marais et de Saint-Marie, tendo como marca de água visto à transparência uma cabeça simbólica de mulher de perfil para o centro.
Dimensões da nota 176 x 117 mm. Foram emitidas 5 210 000 de notas com as datas de 12 de Agôsto de 1919, 11 de Novembro de 1919, 5 de Fevereiro de 1920 e 7 de Julho de 1920. A primeira emissão, foi em 3 de Novembro de 1919, e a última em 13 de Dezembro de 1924. Retirada de circulação em 24 de Junho de 1929.
Biografia:
D. João de Castro nasceu em 27 de Fevereiro de 1500, filho de D. Álvaro de Castro e de D. Leonor de Noronha, ele, senhor do Paul de Boquilobo, governador da Casa do Cível e vedor da fazenda dos reis D. João II e de D. Manuel I, e ela, filha do conde de Abrantes D. João de Almeida e de D. Inês de Noronha.
Era fidalgo da Casa real de D. Manuel, onde obteve uma esmerada educação de hábeis mestres, sendo discípulo do matemático Pedro Nunes, o homem mais conhecedor das ciências desses tempos, e condiscípulo do infante D. Luís, filho do rei D. Manuel I. Estudou letras por imposição do seu pai, mas a sua vocação estava destinada ao uso de armas, aspirando à glória; preferiu enveredar pela carreira militar, a qual foi repleta de êxitos, proporcionando-lhe inúmeras glórias. Com apenas 18 anos de idade embarca para Tânger, onde sobre as ordens do seu governador D. Duarte de Meneses, e durante nove anos, dá tantas provas de valentia e valor, que o fez cavaleiro. Retorna ao reinado onde casa com sua prima D. Leonor Coutinho. No ano de 1535, para auxiliar Carlos V, D. João III enviou uma expedição, onde D. João de Castro acompanhou o infante D. Luís, tendo-se distinguido pela sua valentia. Carlos V, após a vitória, quis honrá-lo armando-o cavaleiro, o qual recusou por o ter sido já armado por outras mãos; perante esta situação o imperador mandou entregar a cada capitão da armada 2 000 cruzados, o que também rejeitou, pois via estes feitos como glória e não como prémio. Regressa a Lisboa, onde é recebido por D. João III, concedendo-lhe a comenda de S. Paulo de Salvaterra na Ordem de Cristo. Embarca pela primeira vez para a Índia portuguesa, como soldado, com o seu cunhado D. Garcia de Noronha, nomeado vice-rei, indo substituir D. Nuno da Câmara, levando o seu filho de menor idade D. Álvaro de Castro. Por morte de D. Garcia de Noronha em 1540, ascende ao governo D. Estêvão da Gama; este fez uma expedição ao mar vermelho, até ao Suez com uma armada composta por 12 embarcações de alto mar e 60 embarcações a remos, dando o comando de um dos galeões a D. João de Castro com a patente de capitão. Esta viagem proporcionou a obtenção de um roteiro minucioso, que o ofertou ao infante D. Luís. Regressa a Portugal e como prémio dos serviços prestados é nomeado general da armada no ano de 1543. No ano de 1545, D. João III, nomeia-o governador da Índia, após consulta com o seu irmão o infante D. Luís. Regressa à Índia levando consigo os seus 2 filhos D. Álvaro e D. Fernando. A armada chega a Goa onde teve de pegar em armas contra o Hidalcão, por este se recusar a entregar o prisioneiro Meale; entretanto Hidalcão é derrotado às portas de Goa, vendo-se obrigado a pedir a paz. No ano de 1546 outro incidente surge, a guerra de Diu, promovida por Coge Çofar, que pretendia vingar a derrota sofrida anteriormente. Deste conflito após renhida batalha os portugueses saíram vencidos, tendo D. João organizado nova expedição sob o seu comando, obtendo estrondosa vitória, a qual proporcionou um sem número de prisioneiros e apreensão de diversas armas de artilharia.
Após esta batalha, a fortaleza de Diu encontrava-se totalmente danificada, pelo que D. João escreveu uma carta aos vereadores de Goa a solicitar um empréstimo de 20 000 pardaos para as obras de reedificação; a célebre carta, datada de 23 de Novembro de 1546, em que ele dizia … “que mandara desenterrar seu filho D. Fernando, que os mouros mataram nesta fortaleza, para empenhar os seus ossos, mas que o cadáver fora achado em tal estado, que não se pudera tirar da terra; pelo que o único penhor que lhe restava, eram as suas barbas, que lhe mandava por Diogo Rodrigues de Azevedo”. O povo de Goa respondeu a esta carta com quantia superior à que fora pedida; vendo que tinham um governador humilde, nobre, leal e de grande valor humano para os defender. Após a vitória de Diu e das obras de beneficiação da sua fortaleza, teve novamente de combater Hidalcão que o derrotou. Vai de Goa para Diu e vice-versa em auxílio dessas praças, derrotando o inimigo que se põe em fuga. Entretanto as suas façanhas e proezas pelo Oriente chegam ao conhecimento do rei, que como recompensa o nomeia vice-rei, em carta de 13 de Outubro de 1547, concedendo-lhe uma ajuda de 10 000 cruzados e prorroga-lhe por mais 3 anos o governo da Índia. Ao seu filho Fernando concede-lhe o posto de capitão - mor do mar das Índias; mas estas mercês chegaram tarde demais para o novo vice-rei as poder gozar, pois cansado pelas contínuas guerras, adoeceu gravemente e tendo a noção da sua gravidade, mandou reunir as mais importantes individualidades de Goa incluindo o bispo com o fim de lhes entregar o governo, tecendo as seguintes palavras: “Não terei, senhores, pejo de vos dizer, que ao vice-rei da Índia faltam nesta doença as comodidades que acham nos hospitais o mais pobre soldado. Vim a servir, não vim a comerciar ao Oriente; a vós mesmo quis empenhar os ossos do meu filho, e empenhei os cabelos da barba, porque para vos assegurar, não tinha outras tapeçarias nem baixelas. Hoje não houve nesta casa dinheiro, com que se me comprasse uma galinha; porque nas armadas que fiz, primeiro comiam os soldados os salários do governador, que os soldos de seu rei; e não é de espantar; que esteja pobre um pai de tantos filhos. Peço-vos, que enquanto durar esta doença me ordeneis da fazenda real uma honesta despesa, e pessoa por vós determinada, que com modesta taxa me alimente”.
D. João deixou diversas obras expressas nos seus famosos roteiros: 1- Na viagem para Oriente evidencia os seus invulgares conhecimentos cosmográficos; 2 – O roteiro da costa da Índia, foi elaborado na expedição do vice-rei a Diu; e 3 - O último roteiro no ano de 1541, aquando da viagem do Governador D. Estêvão da Gama, de Goa ao Sinai.
D. João de Castro faleceu em Goa a 6 de Junho de 1548, nos braços de S. Francisco Xavier, sendo sepultado na capela-mor do convento de São Francisco, com o hábito e insígnias de cavaleiro da Ordem de Cristo. No ano de 1576 foram trasladados os restos mortais para o convento de São Domingos de Lisboa.
F I M
Obra consultada “O papel-moeda em Portugal” Banco de Portugal. Trechos avulsos.
Óbidos 17 de Dezembro de 2009
Publicado no Jornal da Caldas da Rainha - 27-01-2010